sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Violência atinge aluno e professor


Agressões dentro de escolas estaduais atrapalham aprendizado e afugentam educadores da rede


Agência Anhanguera - 15/06/10
Milene Moreto
(Cadastrada em 16/06/10


Carlos, nome fictício, tem 35 anos e foi professor da rede estadual em Campinas. Portador de uma deficiência nas pernas, ouviu todos os tipos de piada. Foi desrespeitado inúmeras vezes pelos próprios alunos. “A sensação é que ninguém nunca ensinou os limites para esses estudantes. Não conseguimos fazer tudo na escola. Se não houver uma educação base, aquela que se aprende com a família e dentro de casa, se não houver valores morais, nada vai avançar na Educação deste País”, lamenta o educador que desistiu de lecionar nas escolas do Estado e hoje faz mestrado.
Agressões verbais, brigas entre alunos, ameaças, presença de armas em sala de aula, tráfico de drogas e carteiras que voam pelos ares. A violência ultrapassou os muros das escolas da rede pública estadual de ensino nas grandes cidades, principalmente nas áreas de periferia. A Delegacia da Infância e Juventude de Campinas tem registrado cerca de 15 casos por mês de violência escolar, entre crimes classificados como bullying ou não.
Mais do que caso de polícia, o problema é educacional. O mal gera a falta de aproveitamento do conteúdo escolar e é responsável pelo desestímulo dos educadores. Um estudo realizado pela Unesco em 2008 indicou que 30% dos afastamentos dos docentes em escolas da rede pública no Brasil são motivados pela violência direta ou indireta, ou pelo sentimento de vitimização.
A violência nas escolas é o tema da terceira reportagem da série Gargalos do Ensino na rede estadual paulista. As duas primeiras trataram dos problemas da aprovação continuada e da falta de estímulo e despreparo dos professores.
Dados
Em 2006, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeosp) e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) realizaram uma pesquisa sobre a violência escolar.
Entre os 700 professores que responderam ao questionário, 82% apontaram a agressão física como a mais comum nas escolas, perdendo apenas para a agressão verbal (96%) e o vandalismo (88,5%).
A violência psicológica afeta de tal maneira professores e alunos que continuar os estudos é praticamente impossível. Alan, nome fictício, tem 14 anos e diz que já apanhou porque os outros colegas de turma achavam a sua aparência diferente. “Eu comecei a me vestir de uma forma diferente. Cheguei a apanhar e ser chamado de homossexual. Não tinha vontade de voltar para a escola. Continuei meus estudos por insistência da minha mãe”, afirmou.
Ausência
Além da insegurança, frustração e sensação de impotência, essa situação tem contribuído para o aumento do estresse e do adoecimento dos docentes. Em pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, em 2003, foi constatado que 22,6% dos professores pediram afastamento por motivo de saúde. Cada licença médica significa, em média, cerca de três meses fora da sala de aula.
Em 2007 foram registradas, diariamente, 30 mil faltas de professores na rede de ensino estadual de São Paulo, a maior do País, com cerca de 250 mil professores. No ano anterior, foram quase 140 mil licenças médicas, com duração média de 33 dias.
Segundo a professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Luciene Regina Paulino Tognetta, as reclamações dos educadores, em sua maioria, estão ligadas a questões morais. “Os professores reclamam muito da indisciplina, da violência, dos descompromisso, das questões ligadas a questões morais. Parece que há um desrespeito com a figura do professor, principalmente na escola pública. É o maior problema apontado pelos professores”, afirmou.
Opinião semelhante tem a coordenadora do curso de Pedagogia da Unicamp, Ângela Fátima Soligo. “Violência é uma coisa, disciplina é outra. A violência só vem à tona porque sai nos jornais. Mas a indisciplina é o principal problema enfrentado nas salas de aula. Hoje, as escolas não lidam com a violência, elas transferem o problema. Situações como essas são necessárias para serem transformadas em aprendizado. Hoje parece que recorrer à polícia é a única solução”, disse.
Especialistas defendem que a escola, para promover relações mais justas, solidárias e de respeito, precisa tomar consciência de que a prática está presente também na relação entre equipe de especialistas com os integrantes da instituição e o trabalho do professor. E também que é preciso oferecer oportunidades para que a construção desses valores morais aconteça. Essas medidas podem ser um esboço de relações equilibradas dentro das escolas.
Governo cria mecanismos para controlar problemas
O secretário de Educação do Estado de São Paulo, Paulo Renato Souza, afirma que para conter a violência dentro da escola, o governo instituiu a figura do professor-mediador. “Nós tomamos iniciativas muito concretas em relação a isso a partir do ano passado. Definimos um código de conduta escolar. Deveres e responsabilidades de pais, professores alunos e com previsão de sanção em caso de transgressões. Isto está sendo implementado na rede de ensino e com resultados positivos. Criamos uma forma de qualquer membro da comunidade escolar poder denunciar casos de transgressões. A terceira iniciativa estamos implementando neste momento, a figura do mediador escolar. É um professor que vai cuidar justamente de administrar e mediar os conflitos dentro da escola. Auxiliando o diretor. Estamos nesta semana com mil mediadores sendo treinados na cidade de Serra Negra para essa função”, afirmou.
Para o secretário, a violência dentro da escola não nasce na sala de aula, é um problema da sociedade que invade a escola. Esta vinculada ao tráfico, a gangues. “Mas também existem problemas internos. É nisso que o mediador poderá atuar e auxiliar a reduzir os casos de violência dentro das salas de aula”, disse.
De acordo com a secretaria, o Sistema de Proteção Escolar, implantado em 2009 para proteger as escolas da rede estadual de fatores de risco e vulnerabilidade e aproximar a comunidade da escola prevê a figura do professor-mediador, entre as atividades pedagógicas e as relações interpessoais de toda a comunidade escolar.
São atribuições do mediador adotar práticas restaurativas e de mediação de potenciais conflitos no ambiente escolar; realizar entrevistas com os pais ou responsáveis dos alunos; analisar os fatores de vulnerabilidade a que possa estar exposto o aluno; orientar a família ou os responsáveis a procurar serviços de proteção social, se necessário; identificar e sugerir atividades pedagógicas complementares, a serem realizadas pelos alunos fora do período letivo; e orientar e apoiar os estudantes na prática de seus estudos.

Educador é levado ao limite
Um professor da rede estadual carrega um aluno para fora da sala de aula. Grita: “Cala boca seu animal. Sossega moleque. Você me desrespeitou. Não vou admitir isso”. Logo após, se volta novamente para o estudante e cobra a presença do pai e da mãe. E desabafa ao ver a reportagem. “Você é repórter? Isso aqui é um professor que não aguenta mais.” O fato ocorreu em uma instituição do Estado na periferia de Campinas há cerca de um mês e foi gravado pelo repórter-fotográfico da Agência Anhanguera Edu Fortes. A situação limite vivida pelo professor é um reflexo das condições de trabalho nas escolas públicas. Nesta mesma instituição onde o professor se descontrolou, outros educadores denunciam que são impedidos de dar aulas de educação física na quadra, pois jovens que não são alunos da escola invadem o prédio armados com estilete e facas para jogar futebol.